O evento promovido pelo Instituto Consciência reuniu especialistas para discutir fatores psicossociais, prevenção do assédio e construção de ambientes de trabalho saudáveis
O II Seminário sobre Saúde Social, promovido pelo Instituto Consciência, reuniu especialistas e participantes de diversas regiões do Brasil para discutir temas centrais relacionados à saúde mental no trabalho, fatores psicossociais e prevenção do assédio nas organizações.
O evento contou com a participação da Profa. Dra. Lis Soboll, da Procuradora do Ministério Público do Trabalho Dra. Cirlene Zimmermann e da Juíza Federal Militar Dra. Mariana Aquino, que compartilharam experiências e reflexões sobre os desafios institucionais envolvidos na promoção de ambientes de trabalho mais seguros, respeitosos e saudáveis.
O seminário foi transmitido online e permanece disponível para acesso público.
Saúde social e o desafio das relações de trabalho
Durante o encontro, a professora e pesquisadora Lis Soboll apresentou reflexões sobre o conceito de saúde social, destacando a importância de compreender os processos de adoecimento no trabalho a partir das relações institucionais e das condições organizacionais que estruturam o cotidiano profissional.
Segundo a pesquisadora, os problemas relacionados à saúde mental nas organizações não podem ser compreendidos apenas no nível individual.
“A crise das relações que vivemos hoje é que está na base dos problemas de saúde mental, dos problemas de assédio e das dificuldades de sermos humanos uns com os outros enquanto trabalhamos.”
Soboll destacou que a construção de ambientes saudáveis depende de escolhas institucionais e coletivas que valorizem a cooperação, o respeito e o cuidado nas relações profissionais.
Fatores psicossociais e organização do trabalho
A Procuradora do Ministério Público do Trabalho, Dra. Cirlene Zimmermann, apresentou reflexões sobre os fatores psicossociais do trabalho e a importância de compreender o adoecimento no trabalho a partir das condições organizacionais.
Durante sua fala, destacou que muitas respostas institucionais ainda tratam o problema apenas no nível individual.
“Precisamos compreender que essa individualização do problema não vai resolver o problema definitivamente.”Zimmermann ressaltou que a gestão dos riscos psicossociais exige olhar atento para aspectos como metas, organização do trabalho, relações hierárquicas e cultura institucional, elementos que podem contribuir para processos de adoecimento quando não são adequadamente tratados.
O cuidado que nasce no cotidiano
Monet pinta a vida comum vivida em relação. Isso ecoa um princípio fundamental do método “Pare. Escute. Acolha.”: o cuidado acontece também antes da crise.
Relações saudáveis não surgem por acaso, elas são cultivadas, escolhidas e sustentadas. Uma mesa posta implica intenção: planejamento, disponibilidade, convite, tempo dedicado ao encontro.
Assédio sexual e políticas institucionais de prevenção
Na terceira palestra do seminário, a Juíza Federal Militar Dra. Mariana Aquino apresentou uma análise sobre prevenção e enfrentamento dos assédios, com foco especial no assédio sexual no ambiente de trabalho.
Segundo a magistrada, o assédio sexual pode ocorrer tanto diretamente no ambiente de trabalho quanto em situações relacionadas à atividade profissional.
“O assédio sexual é uma violência praticada no ambiente de trabalho ou em razão dele.”
A juíza explicou que a legislação brasileira prevê diferentes formas de assédio sexual e destacou a importância de compreender suas manifestações para que instituições possam preveni-lo adequadamente.
De acordo com Aquino, muitas vezes o assédio está associado à relação de poder existente nas estruturas organizacionais.
“O trabalho e a superioridade hierárquica exercem um papel central, pois são fatores que desarmam a vítima, reduzindo ou anulando a possibilidade de reação.”
Durante sua apresentação, a magistrada também apresentou dados de pesquisas realizadas sobre assédio sexual em instituições militares, demonstrando a frequência e diversidade das formas de violência relatadas.
Entre os exemplos citados estão situações envolvendo propostas indevidas, constrangimentos, comentários de cunho sexual, contatos físicos indesejados e chantagens relacionadas à carreira profissional.
A magistrada ressaltou ainda que o enfrentamento do problema depende de políticas institucionais estruturadas.
“A luta contra todas as formas de assédio e discriminação não é a luta de um grupo. É a luta de todos e todas por ambientes de trabalho seguros e respeitosos.”
Romper o silêncio e fortalecer redes de apoio
Outro ponto enfatizado durante a apresentação foi a importância de romper o silêncio diante de situações de assédio, buscando apoio institucional e social.
Segundo a magistrada, muitas vítimas têm dificuldade de relatar as situações vividas devido ao medo de represálias ou ao impacto emocional dessas experiências.
“Romper o silêncio é fundamental. Quando alguém procura ajuda, essa pessoa precisa ser escutada de verdade.”
A juíza destacou ainda a importância da escuta qualificada e do acolhimento institucional para que vítimas possam encontrar caminhos de proteção e justiça.
Construindo ambientes de trabalho mais saudáveis
Ao final do evento, as palestrantes reforçaram que a prevenção do assédio e a promoção da saúde mental nas organizações exigem ações contínuas e articuladas.
Entre as iniciativas destacadas estão:
- políticas institucionais de prevenção
- canais seguros de denúncia
- capacitação de gestores e equipes
- fortalecimento de culturas organizacionais baseadas no respeito.
Segundo as especialistas, enfrentar os riscos psicossociais e as violências organizacionais é um passo essencial para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis.
Assista ao seminário completo
O II Seminário sobre Saúde Social está disponível na íntegra online e pode ser assistido no link: https://www.youtube.com/live;D_iPrj8ggCA